A república da mochila
Polícia Federal flagrou segundo suplente de Alcolumbre sacando R$ 350 mil durante investigação sobre desvios no DNIT
O Brasil é um país curioso.
Em certas democracias, escândalos políticos começam com documentos sofisticados, operações financeiras complexas e transferências internacionais discretas.
Aqui não.
Aqui começa com uma mochila.
Um empresário entra em um banco no Amapá, permanece trinta minutos e sai carregando R$ 350 mil em dinheiro vivo.
Dinheiro vivo.
Não estamos falando de um personagem de filme de máfia dos anos 1970. Estamos falando de um personagem muito mais brasileiro: o suplente de um senador da República.
A cena foi observada pela Polícia Federal, que já investigava movimentações suspeitas detectadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras.
O padrão, segundo o relatório, era quase didático:
contrato público pago
saque em dinheiro
dinheiro desaparece
A repetição desse método teria movimentado mais de R$ 3 milhões em espécie.
O curioso é que tudo isso gira em torno de contratos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, órgão federal responsável por rodovias.
Entre elas, a famosa BR-156, estrada do Amapá que há décadas parece ter sido projetada por um poeta surrealista:
uma obra que nunca termina, sempre precisa de mais recursos e raramente entrega resultados.
Mas a parte realmente deliciosa da história — deliciosa no sentido político do termo — é o carro.
O homem que sai do banco com R$ 350 mil entra em uma SUV.
Esse carro pertence a uma empresa cujos sócios são primos do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Posteriormente surge a explicação clássica da política brasileira:
o carro havia sido vendido antes apenas não tinham transferido.
No Brasil, carros são vendidos sem transferência, empresas fazem saques milionários em dinheiro vivo e estradas custam fortunas sem nunca ficarem prontas.
Mas tudo isso é pura coincidência.
Naturalmente.
O senador afirma não ter qualquer relação com os negócios do suplente.
E, juridicamente, pode até estar correto.
O problema é que a política brasileira não funciona como um laboratório jurídico. Ela funciona como um sistema de proximidades.
Suplentes não são sorteados em bingo.
Eles são escolhidos.
Eles fazem parte de alianças.
Eles representam interesses.
E às vezes — apenas às vezes — aparecem em relatórios da Polícia Federal carregando mochilas com dinheiro.
O escândalo aqui não é o saque.
O escândalo é a naturalidade.
O Brasil criou um sistema político tão deformado que ninguém parece realmente surpreso quando milhões circulam em dinheiro vivo ao redor de contratos públicos.
Em qualquer democracia séria, isso provocaria audiências parlamentares, crises institucionais e manchetes por semanas.
Aqui vira apenas mais um capítulo de uma novela antiga.
Uma novela em que o enredo é sempre o mesmo:
Estado, contratos, influência política e dinheiro.
Muito dinheiro.
De preferência em espécie.




Os políticos na ativa sofisticaram. São gente séria, não se envolvem nas tais da “tenebrosas transações”. O mesmo não se pode dizer dos familiares, suplentes, “ex” assessores…
O problema desse país é o povo que nele habita. Pequenas transgressões como avançar sinal de trânsito, jogar o cocô do cachorro no jardim do vizinho, andar de bicicleta na calçada, tudo isso é considerado normal e habitual. Com essa mentalidade, pessoas que se tornam políticos, carregam os mesmos princípios, porém as oportunidade de transgredir são muito mais apetitosas. No Brasil, a ocasião faz o ladrão. Rouba-se a vontade porque qualquer um que se veja na condição privilegiada de um político e já traz consigo aqueles mesmos princípios destorcidos que aprendeu na infância, não sentirá nenhum constrangimento em desviar fundos e cometer crimes. Afinal de contas, não é bom levar vantagem em tudo ?